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Por Otis Keener.

Fazia duas semanas que ele tinha começado a compor uma música, mesmo sem ser compositor ou mesmo um músico super talentoso, gostava de compor algumas canções pra tocar em seu violão quando a galera se reunia na casa de alguém. E Jefferson sempre preferia que todos fossem para a casa da Maria Eduarda, porque em sua própria casa, Madu, como era chamada pelos amigos, se sentia mais a vontade e sempre deixava seu corpo ser levado ao som das melodias em uma dança feliz e intensa, como se desligassem o universo e só existisse a dimensão guiada pela vibe criada pelas notas musicais saídas do violão de Jefferson. Mesmo que na casa do Alfredo tivesse piscina, mesmo que na casa da Lú tivesse um gramado enorme no jardim e mesmo que na casa do Fernando não houvesse ninguém, seus pais viajaram, Madu nunca se sentia a vontade completamente ao ponto de se deixar levar pela música e soltar seu corpo naquela dança que transbordava e contagiava a sensação de liberdade.

Mesmo sem dizer uma palavra, todos sabiam que Jefferson era apaixonado por Madu, que insistia em discordar, “ele é só meu amigo, como qualquer um de vocês, e ele é carinhoso assim com todas as amigas dele”, dizia sempre. Mesmo notando o rosto dele ficar todo vermelho quando questionavam isso na sua frente, ela não queria acreditar. Talvez por medo, ou por orgulho, gostava de tê-lo por perto, mas apenas como amigo. Gostava de ouvi-lo tocar e cantar, com uma voz tímida e baixa bem afinada, sempre era encoberta pelos outros que gostavam de cantar aos gritos, e não importava se afinados ou não, a alegria era geral quando ele começava a tocar uma música que todos gostavam.

Das canções que ele criou, todas eram inspiradas nela, e todos sabiam mesmo sem ele dizer nada a ninguém. Mas a sua última composição não estava pronta quando pediram pra ele tocar e cantá-la. E ao ser questionado o motivo, “não estou conseguindo montar uma frase do refrão” disse meio embaraçado. “Diz pra gente que a gente te ajuda” gritou Laurinha, sua amiga mais próxima e a que mais o incentivava a botar pra fora tudo que sentia em suas músicas, pois sabia que esses sentimentos eram por Madu. “Na escuridão, o brilho do luar me faz te enxergar a olho nu, eu gosto é de você Madu”, disse Mauricio o mais brincalhão, como dica para completar a frase que faltava na música. Enquanto todos bolavam de rir, Jefferson sorria amarelo olhando para o violão em seu colo sem perceber que Madu olhava fixo para ele como se perguntasse se aquilo que todos diziam era verdade. “Mas qual a bendita frase que você não consegue terminar?” Perguntou Léa impaciente, sempre impaciente.

“Os olhos que eu não consigo encarar
 Pertencem ao rosto que eu mais gosto de olhar,
Quanto mais eu tento disfarçar,
Mais pareço me apaixonar.
Na juventude hoje no luar
Na velhice de mãos dadas a me guiar
Apenas como amiga não consigo suportar
A vontade intensa que eu tenho de te beijar
 
E quando eu me perco em você encontro meu norte
Se estás longe sinto sua falta e questiono minha sorte
Sorte que me trás você pra perto e tenho que ser forte
Pois te amarei até a morte.”

Cantou suavemente ao som de seu violão deixando todos emocionados e admirados. Mesmo estando em sua casa, dessa vez Madu não dançou. E antes que alguém pudesse falar alguma coisa, Lea questiona novamente: “Mas qual a bendita frase que você não conseguia terminar?” Jefferson respirava pesado. “Eu não consegui colocar o nome a Maria Eduarda na música.”

A música era o meio que ele havia encontrado para se declarar. Todos perplexos olhando para Madu e para Jefferson como em um jogo de tênnis assistido na lateral da quadra. Madu olhando fixo para Jefferson sem saber o que dizer, mas se mantendo sempre como se tivesse controle da situação. “O que você disse na música é pra mim? E é verdade?” Envergonhado, com o rosto vermelho, mãos trêmulas e suadas, mal conseguiu dizer um “sim” engasgado, com o olhar fixo para baixo. Ninguém tinha coragem de dizer nada, não queriam interromper aquele momento que era tão esperado, até mesmo Mauricio, que sempre tirava brincadeira nos momentos mais impróprios, ficou calado, apesar de ter pensado em várias coisas pra dizer.

O silêncio perdurou alguns segundos, que pareciam horas. Quando finalmente Madu respirou e disse: “Jefferson, toca aquela música Pais e Filhos do Legião Urbana?!” “Claro.” E começou a tocar, todos acompanharam cantando mesmo sem entender nada, e esqueceram a declaração de Jefferson, pelo menos por enquanto.

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Dessa vez preciso que comentem dizendo se gostaram ou não, e dependendo dos comentários talvez eu continue a estória, ou paro de escrever de uma vez por todas oO.

Qualquer elogio ou xingamento por email ou twitter, por favor. otis_keener@yahoo.com.br ; @Okeener ; thanks.

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